Quando o sol se põe: um olhar sobre o ressentimento

Uma das passagens mais conhecidas a respeito da ira é Efésios 4.26. Ali, Paulo diz que não se deve “deixar o sol se pôr sobre a ira”. A ira deve ser resolvida no mesmo dia, não se deve deixar para o dia seguinte. Mas o que acontece quando se deixa para o dia seguinte? O que acontece quando ela é internalizada e torna-se uma hostilidade silenciosa? E qual é, pois, a solução para isso?

O que é ressentimento

O ressentimento é a ira não resolvida. É o resultado da ira que é guardada, e que em algum momento se manifesta em atitudes de hostilidade. É também chamado de amargura. Segundo Heath Lambert, amargura é a “ira de longo prazo, que vence em sua vida quando você se recusa a perdoar alguém que pecou contra você”.[1] A palavra grega para ressentimento é πικρία (amargura). É o estado de espírito de alguém que se recusa à reconciliação.[2] No Novo Testamento, é um comportamento associado aos ímpios (At 8.23; Rm 3.14), e que deve ser evitado pelos crentes (Ef 4.31; Hb 12.15).

A amargura pode ser uma resposta pecaminosa ao sofrimento, causada pela incredulidade na justiça e soberania de Deus mesmo quando o seu propósito é oculto. Um exemplo está no livro de Rute, na pessoa de Noemi, que depois de ter perdido seu marido e filhos e retornado à sua terra se tornara amarga, e culpava a Deus por sua amargura.[3] Mas uma outra causa para a amargura é a ira não resolvida. Essa é a causa mais comum. O modo correto de resolver a ira é tratá-la diariamente. Os cristãos não devem deixar o sol se pôr sobre a sua ira (Ef 4.26), isto é, devem resolvê-la no mesmo dia em que aparece. O ressentimento é o que acontece quando se permite que muitos “sóis” se ponham sobre a ira.[4]

O ressentimento é algo que caracteriza a ira injusta. Um dos testes pelos quais pode-se dizer se uma ira é justa ou injusta é o teste da duração. Se a ira dura mais de um dia, uma semana, uma década, algo está errado.[5] Segundo Robert D. Jones, o que acontece quando não se lida corretamente com o ira no coração é que ela cozinha. Disso, o que se resulta, é vingança e ressentimento.[6]

A amargura é um problema interno que, se mantida, se manifesta externamente (Hb 12.15). É como uma raiz que brota e contamina a muitos. Ela começa no coração, mas em algum momento se manifesta em atitudes de ressentimento. Enquanto não manifestada, é encoberta com mentira, mas em algum momento se torna pública (Pv 26.24–26). Quando não se repreende o próximo, leva-se pecado sobre si. A ira é guardada no coração e se manifesta em atitudes de vingança, o que impossibilita o verdadeiro amor ao próximo (Lv 19.17-18). Em Efésios, Paulo reflete o mesmo princípio (Ef 4.31). As palavras amargura, cólera, ira, gritaria e blasfêmias referem-se à uma coisa só, visto que são sujeitos de um verbo conjugado no singular. Elas são várias facetas do que acontece quando se recusa a perdoar. Contudo, há uma certa progressão. Elas vão de atitudes internas (amargura e ira) a atitudes externas (gritaria e blasfêmias). O ressentimento se inicia numa atitude interna de recusa ao perdão, e se manifesta em problemas de relacionamento que afetam a muitos.

As manifestações do ressentimento

A primeira manifestação de ressentimento, da ira não resolvida, é o bloqueio na comunicação. Quem abriga ressentimento finge que está tudo bem, mas na verdade não está.[7] O seu ódio é encoberto com engano (Pv 26.24–26). Ou seja, as suas palavras para com a outra pessoa tornam-se mentirosas. Uma igreja que tem pessoas ressentidas umas com as outras não consegue coordenar esforços. Ela só pode funcionar num nível mínimo, superficial. pois os membros do corpo estão zangados um com o outro.[8] Elas não conseguem agir mais como membros um dos outros, porque não falam a verdade com o seu próximo (Ef 4.25).

Outra manifestação do ressentimento é o falar destrutivo. Paulo diz que se deve corrigir o pecador com espírito de brandura (Gl 6.1-2). O falar do crente para com o faltoso deve ser edificante, restaurador. Segundo Paul Tripp, é necessário ver o conflito gerado pela falta de uma pessoa como uma oportunidade de ser instrumento de Deus para a restauração daquela pessoa.[9] Contudo, o que mais acontece é que o ressentimento se manifesta em palavras rudes (Ef 4.29) e em brigas, gritarias (Ef 4.31). O falar deixa de ser edificante e passa a ser destrutivo.

Uma terceira manifestação do ressentimento é a difamação (Lv 19.16; Ef 4.31). Em vez de se falar com a pessoa que cometeu a ofensa, o ressentido fala com todos os outros. Há um desejo de que o máximo de pessoas possível saiba da ofensa que foi cometida.

Em suma o resultado do ressentimento é a separação entre duas pessoas. Elas são alienadas uma da outra, seja pela comunicação ineficaz (com mentiras), pelo falar destrutivo (com palavras rudes), ou por formas indiretas de vingança (difamação).

A solução para o ressentimento

Qual é a solução para o ressentimento? O que fazer com a ira que não pôde ser encoberta pelo amor, e que ficou queimando por dentro? A solução para o ressentimento está na substituição dos velhos padrões de vida pelos novos padrões. O que Paulo propõe em Efésios 4.24 é uma exata inversão do estilo de vida. O cristão deve abandonar o modo de viver do velho homem e se revestir do novo. Isso também vale para os que acumulam ressentimentos.[10]

O ressentimento deve ser evitado. Jay Adams diz que “todo dia os cristãos devem tratar de resolver os problemas que tenham surgido”.[11] Não significa que todos os pecados devam ser confrontados, mas que aqueles que não for possível se encobrir com amor devem ser tratados mediante confrontação pessoal, e não levados para o dia seguinte.[12] Isso é importante para a saúde do corpo da igreja. Se as desavenças não puderem ser cobertas pelo amor, elas devem ser “tratadas diretamente, de modo que os membros do corpo funcionem juntos e apropriadamente”.[13]

O ressentimento deve ser resolvido com urgência. Jesus considera a condição de dois crentes que alienados um do outro pela ira como sendo um obstáculo ao exercício da adoração verdadeira (Mt 5.24).[14] Enquanto que em Mateus 5.24 é estabelecido que a reconciliação pode partir do ofensor, em Mateus 18.15 é possível ver que a reconciliação pode partir daquele que fora ofendido. Em suma:

Toda vez que se produz um afastamento, separando crentes, não importa quem seja o culpado, ambas as partes são obrigadas a tomar a iniciativa na busca da reconciliação. Se um irmão ofende outro, ele deve ir à procura da parte ofendida, mas se foi seu irmão que o ofendeu, ainda fica no dever de ir.[15]

Jay Adams

Pode acontecer que uma das partes busque a reconciliação e a outra se recuse. Nesse caso, Adams diz:

Se não se pode obter o perdão, aquele que tomou a iniciativa fez tudo o que podia fazer em tais circunstâncias. […] Na medida em que diga respeito à sua parte, a pessoa é obrigada a fazer tudo o que pode para produzir a reconciliação. […][16]

Jay Adams

Para se resolver o ressentimento já instalado e suas consequências no que diz respeito à comunicação, temos o princípio do “despojar e revestir”, conforme aparece em Efésios 4. Ele deve substituir seu ressentimento por “palavras piedosas que ministram a outros”.[17]

Em primeiro lugar, o ressentido deve substituir a mentira pela verdade (Ef 4.25), isto é, ele deve admitir e confessar a sua amargura. Eles devem falar a verdade a respeito do que sentem e ajeitar as coisas com os outros.[18]

Em segundo lugar, o ressentido deve substituir palavras torpes por palavras que edificam (Ef 4.29), isto é, substituir palavras indelicadas, que complicam os problemas, por palavras que são úteis para a edificação.[19] O conflito torna-se uma oportunidade de ser instrumento de Deus para a restauração daquela pessoa.[20]

Em terceiro lugar, o ressentido não deve entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30). O Espírito Santo quer produzir restauração tanto na pessoa ofendida quanto no ofensor (sendo ele um crente), e aquele que anda conforme o Espírito dirá palavras que estejam de acordo com aquilo que o Espírito quer produzir.[21] Quando o ressentido expõe sua hostilidade em palavras de ira, ele entristece o Espírito Santo. Os cristãos entristecem o Espírito toda vez que deixam de comunicar-se como devem, e fazem uso de mentira, ressentimentos, brigas e palavras ferinas.[22]

Em quarto lugar, o ressentido deve limpar o seu coração (Ef 4.31-32). Ele deve substituir seu ressentimento e ira por bondade, misericórdia e perdão (Ef 4.31-32). Deve-se haver uma mudança no coração. Aquele que é bondoso e misericordioso pensará no bem daquele que é o ofensor. A necessidade do pecador é ser confrontado e, se arrependido, perdoado. Antes de pensar na sua ira e desejo de vingança, ele pensará na edificação que pode promover na vida do faltoso.

O exemplo, o motivo e o poder para tal perdão são encontrados no perdão de Deus em Cristo (Ef 4.32). O ressentido pode mover-se para o perdão. Ele tem um modelo de perdão: o modo como foi perdoado, de uma vez por todas, em Cristo. Ele tem motivo para o perdão: ele foi perdoado por Cristo, imerecidamente, sendo ele pecador. E ele pode perdoar. Não é algo impossível, por causa do poder de Cristo concedido a ele.


[1] LAMBERT, Heath, Overcoming Bitterness (A Transcript).

[2] MOULTON, James Hope; MILLIGAN, George, The vocabulary of the Greek Testament, London: Hodder and Stoughton, 1930, p. 512.

[3] BIBLICAL COUNSELING COALITION, The Heart of Bitterness, Biblical Counseling Coalition, disponível em: <http://www.biblicalcounselingcoalition.org/2014/02/21/the-heart-of-bitterness/>, acesso em: 18 jun. 2019.

[4] ADAMS, Jay, Conselheiro Capaz, São José dos Campos: Fiel, 1970, p. 211.

[5] POWLISON, David, Como Compreender a Ira, in: Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, Atibaia: SBPV, 1999, v. 5, p. 78.

[6] JONES, Robert D., Ira: arrancando o mal pela raiz, São Paulo: NUTRA Publicações, 2010, p. 115.

[7] ADAMS, Conselheiro Capaz, p. 211.

[8] Ibid.

[9] TRIPP, Paul, Palavras que Edificam, in: Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, Atibaia: SBPV, 1999, v. 2, p. 93.

[10] ADAMS, Conselheiro Capaz, p. 212.

[11] Ibid., p. 211.

[12] Ibid.

[13] Ibid.

[14] Ibid., p. 212–213.

[15] Ibid., p. 213.

[16] Ibid., p. 215.

[17] JONES, Ira: arrancando o mal pela raiz, p. 125.

[18] ADAMS, Conselheiro Capaz, p. 212.

[19] Ibid., p. 216.

[20] TRIPP, Palavras que Edificam, p. 93.

[21] Ibid., p. 87.

[22] ADAMS, Conselheiro Capaz, p. 217.

Imagem: Andre Hunter on Unsplash

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