Charles Spurgeon contou certa vez a seguinte história:

Dois bons homens tiveram uma grande diferença entre si nos negócios. Não sei qual dos dois era culpado – talvez nenhum deles. Eles podem ter entendido mal um ao outro. E um deles, enquanto caminhava para casa, muito agitado, viu o sol se pondo, e a passagem bíblica lhe ocorreu: “Não se ponha o sol sobre a sua ira” (Ef 4:26). Ele pensou: “Voltarei e pedirei desculpas, pois acredito ter falado de forma muito rude.” Ele voltou para o escritório de seu amigo e, na metade do caminho, encontrou o outro vindo a ele na mesma missão.[1]

O perdão mútuo deve ser uma marca da igreja. O cristão deve ser aquele que perdoa.[2] Nem mesmo a adoração é possível se não houver perdão (Mt 5). Mas falar é bem mais fácil que fazer. Um dos principais empecilhos para o perdão mútuo é o ressentimento. O ressentimento é aquilo que acontece quando nos recusamos a nos reconciliar, quando deixamos a ira contra o irmão apodrecer no coração, e se manifestar em atitudes pecaminosas. O que devemos fazer quando estamos amargurados, magoados com alguém? E como nós podemos nos ir do ressentimento ao perdão?

Em Efésios 4 temos o princípio do despojar e revestir (v. 22-24). Devemos deixar os pensamentos e hábitos típicos da velha natureza, e substituí-los por um jeito de viver próprio da nova natureza, criada à imagem de Deus. Isso implica que, quando nós ficarmos irados, não devemos pecar (v. 26), e que a nossa forma nos relacionar uns com os outros deve ser diferente distinta do modo que o mundo se relaciona (v. 25-32). No fim desse capítulo (v. 31-32), temos algumas medidas que devemos tomar para resolver o problema do ressentimento. Vejamos:

  1. Limpe o seu coração. Devemos deixar de lado a amargura e a ira pecaminosa (v. 31). Essas são atitudes do coração. A amargura é como uma raiz que nasce no coração, brota no meio da igreja e contamina a muitos (Hb 12.15). É aquele espírito que olha para o irmão com antipatia, com azedume. Tudo o que a pessoa fazirrita. Tudo o que ela dizé motivo de desgosto. E a ira pecaminosa é a ira que não é acompanhada de outras virtudes, como a paciência e a brandura. É quando queremos destruir não o pecado, mas a pessoa.
    Muitas vezes pensamos, quando estamos irados, que o problema é o outro. Que o pecado é grave demais, e que o outro devia ter vindo a nós primeiro e pedido perdão. Mas ainda que o irmão esteja errado, a responsabilidade pelo que sentimos ou sobre como agimos para com ele é totalmente nossa.
    O que devemos fazer é nos arrepender da amargura e da ira pecaminosa, e substitui-las por bondade e compaixão. Bondade équando pensamos nos interesses do próximo mais que em nossos interesses. Bondade é ser generoso. Bondade é “gentileza”. Compaixão éter um sentimento pelo outro que flui do coração. É ter empatia. É importar-se com suas aflições. Quem é bondoso e misericordioso não cede à ira.Ele está tão ocupado pensando naquilo que é melhor para o irmão que, quando magoado, busca a reconciliação; e não a vingança.
  2. Reveja suas atitudes. Devemos deixar de lado a gritaria, que é o ressentimento externado em brigas e discussões, e as blasfêmias, que é a difamação do outro, muitas vezes feita pelas costas (v. 31). Não devemos lidar com as ofensas como os não crentes o fazem. Eles é que dizem coisas como “Eu não perdoo”, “Ele vai ver só”. Os ímpios é quem difamam os outros, quem destroem reputações, quem partem para a violência. Não devemos nos colocar no lugar de Deus. Tiago diz que quem fala mal dos outros está se colocando no lugar de Deus (Tg 4.11-12).
    Devemos substituir a gritaria e a difamação pelo perdão mútuo (v. 32). Devemos corrigir o pecador com amor (Mt 18; Gl 6). Devemos perdoá-lo quando se arrepende (Lc 17). O perdão é uma graça dada ao ofensor.[3] É uma promessa dada àquele que se arrependeu de não cobrar a dívida. Quando perdoamos, prometemos não mais trazer mais o assunto à tona, não mais comentar com os outros, nem ficar nos lamentando em autopiedade.[4]
  3. Olhe para a graça de Deus. Só podemos perdoar se estamos amparados na graça de Jesus Cristo (v. 32). Ele é o exemplo, o motivo e o poder para a mudança. Ele nos perdoou uma vida inteira de pecados, assumindo toda a dívida para si, e quando olhamos para tamanho perdão que ele nos deu, o perdoar um só pecado se torna uma coisa pequena. Assim como o filho mais velho (Lc 15) é incapaz de perdoar porque não se vê como necessitado de perdão, nós perdoamos porque sabemos que fomos muito perdoados.

Que a igreja seja conhecida como uma comunidade que perdoa. Que as pessoas olhem para a igreja e digam: “Ali há perdão”


[1] C. H. Spurgeon, “Hindrances to Prayer,” in The Metropolitan Tabernacle Pulpit Sermons, vol. 20. London: Passmore & Alabaster, 1874, p. 511–12

[2] Adams, Jay. Teologia do Aconselhamento Cristão. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016. p. 255

[3] Adams, Jay. Op. cit. p. 257

[4] Ibid. p. 306

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