Um alerta para o ano novo

Passou-se 2017. Muitos comemoraram a virada do ano novo com amigos e pessoas queridas. É bem comum nessa época pensarmos a respeito do que fizemos e do que não fizemos; e estabelecer propósitos para o ano novo. Essa avaliação é algo excelente de se fazer. No texto de 1 João 2.12-17 nós temos uma ferramenta muito útil para isso. João fala coisas a respeito de onde estamos, de quem somos. E então ele nos dá um alerta para o nosso futuro.

Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados, por causa do seu nome.

Pais, eu vos escrevo, porque conheceis aquele que existe desde o princípio.

Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno.

Filhinhos, eu vos escrevi, porque conheceis o Pai.

Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio.

Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.

(1João 2.12-17)

A primeira carta de João foi escrita para uma comunidade afetada pela influência de falsos mestres. Falsos mestres causam um estrago na igreja. Muitas vezes o maior problema que podemos ter vem de dentro, e não de fora da igreja.

João quer que a igreja aprenda a discernir o falso mestre. A igreja deve aprender a discernir verdade de mentira. Então João nos dá vários sinais pelos quais podemos discernir o verdadeiro crente e o falso crente. Isso serve tanto para que possamos expulsar os falsos crentes do nosso meio, quanto para que os verdadeiros possam ficar tranquilos e seguros na certeza de sua salvação.

No capítulo 1, versículos 5 a 10, João nos mostra que o verdadeiro crente sabe que é pecador. Ele não nega a realidade do pecado. E ele obtém perdão de Deus, pela obra de Jesus Cristo. O falso crente nega que é pecador, ele nega a própria natureza do pecado.

No começo do capítulo 2, a partir do versículo 3, João nos mostra que o verdadeiro cristão guarda a Palavra de Deus e anda em obediência. O falso crente é aquele que não guarda os mandamentos. Ele vive em pecado. Ele vive uma vida completamente dissociada da vontade revelada de Deus.

Em meio a tanta falsidade, os verdadeiros crentes correm grande perigo. Eles correm o perigo de se deixar levar temporariamente pelo mundo. Eles correm o risco de perderem sua confiança na graça de Deus. Podem ficar confusos, e sem esperança.

Agora, em sua carta, João traz um alerta aos verdadeiros crentes. Porque mesmo eles precisam ser relembrados de quem são, e alertados quanto ao perigo que correm. João escreve sua carta à verdadeira igreja, para que ela possa reconhecer quem é, e se ver diferente do mundo e de tudo que há ao redor.

Há duas coisas que podemos notar nessa mensagem de João para nós.

  1. A primeira é o estado do verdadeiro cristão.
  2. A segunda é um alerta ao verdadeiro cristão.

Qual é a mensagem de João aos verdadeiros crentes?

O ESTADO DO VERDADEIRO CRISTÃO

A primeira coisa que vemos aqui é o estado do verdadeiro cristão. Nos versículos 12 a 17 há algumas repetições. É como poesia. João diz “eu vos escrevo” para direcionar a carta. Ele a direciona aos verdadeiros crentes, àqueles que foram perdoados por Deus, que conhecem a Deus e que vencem o Maligno.

Perceba que algumas vezes João se dirige aos “Jovens”, e em outras ele se dirige aos “Pais”. João está falando tanto aos que ainda estão crescendo na fé quanto aos experientes, às pessoas mais maduras daquela igreja. Tanto os jovens quanto os adultos precisam desse alerta. Muitas vezes os jovens não ouvem uma instrução porque acham que não precisam disso. Afinal, são jovens, há tempo para pensar em religião depois. Muitas vezes os mais velhos não ouvem instrução porque pensam que já sabem tudo o que precisam saber. João se dirige a ambos, e os relembra de verdades que podem ter sido ignoradas, ou esquecidas.

João diz “eu escrevo a vocês porque”, e como motivo ele lembra os crentes de qual é o seu estado. Os lembra de onde estão, de quem são. O que pode-ser dizer do estado do verdadeiro crente?

O VERDADEIRO CRISTÃO É PERDOADO

Veja o verso 12: “Filhinhos, eu vos escrevo, porque os vossos pecados são perdoados, por causa do seu nome”. Essa é a primeira verdade a respeito do verdadeiro cristão. Ele é perdoado.

Para começar, todos nós pecamos. João nos lembra disso, no capítulo 1. O falso mestre nega a realidade do pecado. Os pré-gnósticos, que eram os hereges daqueles dias, entregavam seu corpo a todo tipo de prática pecaminosa. E eles diziam: “não temos pecado”. Nós temos pecado. Nós não negamos isso. Quem nega é mentiroso. Sabemos que o pecado faz parte de nossa vida. E isso entristece o nosso coração.

Então nós somos perdoados. Se pecarmos, temos advogado justo e fiel. Temos a Cristo, que é a propiciação pelos nossos pecados. João nos lembra disso no início do capítulo 2. Por causa de Cristo, nós fomos e somos continuamente perdoados. No passado, no presente e no futuro, somos perdoados.

É muito interessante que João tenha começado seu alerta aos cristãos com a realidade do perdão. Isso confronta o nosso moralismo. Às vezes podemos ser moralistas. Às vezes enfatizamos tanto a santidade, falamos tanto do temor de Deus, das obras que devemos realizar, que nos esquecemos da realidade do perdão.

Há pessoas que precisam ser confrontadas com a realidade do pecado, da justiça e da ira de Deus. Mas há pessoas que já foram confrontadas, e diante disso estão simplesmente desesperadas. Não sabem o que fazer. Sabem que o pecado é uma ofensa a Deus, e diante disso apenas recuam, assustadas.

Se você está nessa situação, precisa então saber da boa notícia: em Jesus, os crentes obtém perdão. A vida cristã, o afastamento do pecado, a santidade, tudo só é possível porque primeiro veio o perdão. O perdão é o fundamento para a vida cristã. Sem o sangue de Cristo derramado por nossos pecados, somos incapazes de conhecer a Deus, vencer o maligno e nos apartar do mundo.

O VERDADEIRO CRISTÃO CONHECE A DEUS

A segunda verdade a respeito do verdadeiro cristão é que ele conhece a Deus (v. 13, 14). Novamente, é algo tanto passado quanto presente. Tanto jovens quanto pessoas maduras têm conhecido ao Pai, aquele que é desde o princípio.

Deus se fez conhecido. Ele se revelou na sua palavra, que foi escrita por homens inspirados pelo Espírito Santo. Ele se revelou em Jesus, encarnando-se como homem e mostrando o seu caráter e poder.

Tem uma música gospel por aí , bem complicada, que diz: “Ninguém explica Deus”. Isso não é muito verdade. Deus se explicou. Ele se revelou. Ele nos deu tudo o que nós devemos saber a respeito dele.

E aquele que, pela graça, recebe a salvação que vem de Deus, conhece a Deus. Pode não apenas entender a Escritura, como também pode tem diariamente a certeza de que Deus está presente. Anda com Deus todo dia. Conta com o auxílio de Deus, mesmo diante das dificuldades.

O verdadeiro crente conhece a Deus. E pode desfrutar desse conhecimento. Contudo, muitas vezes nos afastamos de Deus, ou não desfrutamos daquilo que já é garantido a nós. Por que? Muitas coisas podem levar a isso. Mas acho que o principal motivo é que perdemos o ponto em que o conhecimento de Deus é a melhor coisa do mundo. O conhecimento de Deus é fonte de alegria.

Nós perdemos de vista versos como Jeremias 9.23:

“Assim diz o SENHOR: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; 24 mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o SENHOR e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR.”

Jesus diz que a vida eterna é conhecer a Deus (Jo 17.3). O apóstolo Paulo nos diz que tudo é perda perto do conhecimento de Deus (Fp 3.8). Se perdermos a perspectiva de que o conhecimento de Deus é fonte de alegria, de contentamento, então procuraremos alegria em outros lugares. E isso só nos leva a frustração. Isso é um desastre em nossa vida. Por que não, nesse ano de 2018, a desfrutar mais e mais do que já foi garantido a nós: o conhecimento de Deus?

O VERDADEIRO CRISTÃO OBTÉM VITÓRIA CONTRA O MALIGNO

A terceira verdade a respeito do cristão é que ele obtém vitória contra o mal, ou contra o maligno. E isso é algo que João dirige especialmente aos jovens (v. 13b, 14b): “Jovens, eu vos escrevo, porque tendes vencido o Maligno […] Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno.”

João reconhece que os jovens são fortes (v. 14). Muitos jovens desperdiçam sua vida com vícios e cuidados inúteis do mundo. Mas essa força deve ser direcionada para a verdadeira luta a ser travada. A luta é contra o Maligno, aquele que nos tenta e nos atrai pela cobiça do nosso coração.

O verdadeiro crente obtém vitória contra o mundo, a carne e o diabo. É possível abandonar pecados e viver de forma santa, para aqueles que foram perdoados e conhecem a Deus.

Aliás, é essa a ordem em que tudo acontece. Você foi perdoado. Você conhece a Deus. E você obtém vitória contra o Maligno. Uma vitória que não é graças a você. Ela está garantida desde antes do Universo existir. Jesus venceu Satanás. Ele venceu a morte. Ele veio para resolver o problema do pecado, e ele o fez.

Mas às vezes eu e você duvidamos disso. Duvidamos que é possível abandonar pecados. Sim, é impossível alcançar perfeição nesta vida. Sim, Satanás nos tenta diariamente, e em tudo que ele nos tenta a nossa própria cobiça do coração é atraída. Mas muita gente se apega a esse fato como desculpa para permanecer em seus pecados de estimação. Estamos tão atolados na lama que parece impossível. Parece que não tem mais jeito. Nós tentamos continuamente, e falhamos. Então vivemos lamentando, murmurando, porque sempre dá errado. E, em algum momento, desistimos de tentar.

Então nos sentimos indignos, sujos. Nos esquecemos do perdão de Deus. Nos perdemos da perspectiva da graça de Deus. Então, nós nos afastamos do Senhor. E isso só nos traz tristeza e frustração. Nada vai nos dar alegria.

Talvez seja por isso que essa mensagem foi dirigida aos jovens. Os jovens ainda vivem o drama. Os cristãos mais experientes (e aqui não estou falando de idade), em geral, já experimentaram na sua vida a vitória sobre inúmeros pecados. Eles já sabem que Deus continua a obra que começou em nós, e um dia terminará. Ele vai trabalhar nosso caráter de maneiras que nós nem imaginamos.

O fato é que é possível vencer o Maligno, porque a vitória sobre ele já foi garantida na cruz. Devemos nos lembrar da obra de Cristo. Sua obra é mais que suficiente. A vitória é possível; não por causa de nós, mas por causa dele. A luta contra o Maligno é uma vitória garantida. Ele já foi vencido.

UM ALERTA AO VERDADEIRO CRISTÃO

Nós vimos que João nos apresenta o estado do verdadeiro cristão. Ele faz isso como uma preparação para o que vem agora. A segunda coisa que vemos aqui é um alerta ao verdadeiro cristão.

NÃO AMEIS O MUNDO

O alerta é para que o verdadeiro cristão não ame o mundo (v. 15). “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele”.

É importante notar aqui que o amor ao mundo está colocado em oposição ao amor de Deus. Ou você ama o mundo, ou você tem o amor de Deus. Os mandamentos de Deus estão resumidos no amor: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Esse amor com o qual podemos cumprir os mandamentos não vem de nós. É o próprio amor de Deus em nós. Isso significa que, se amamos o mundo, não cumprimos os mandamentos.

O que significa “mundo” aqui? A palavra “mundo”, na Bíblia, pode assumir diferentes significados. Aqui, tem o sentido de tudo aquilo que está em oposição a Deus. São todas as pessoas, os valores, os costumes, a cultura que está em oposição contra Deus.

Amar o mundo é quando adoramos a Criatura, em lugar do criador. É quando colocamos alguma coisa no lugar de Deus. É quando buscamos nas coisas aquilo que só podemos obter de Deus. É quando buscamos satisfação presente e temporária, em lugar da satisfação futura e eterna.

O QUE HÁ NO MUNDO NÃO PROCEDE DO PAI

Por que não devemos amar o mundo? João começa a dar os motivos. ELe nos mostra que as coisas do mundo não provém de Deus.

Mas o que são essas coisas do mundo? João começa a especificar (v. 15): “porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.”

O que há no mundo são maus desejos. São os maus desejos da carne: a sensualidade, a luxúria, os prazeres sensoriais experimentados fora do projeto de Deus. São os maus desejos dos olhos: a cobiça, a busca daquilo que não é nosso, que não podemos ter. E a soberba da vida, o orgulho, a arrogância, a busca por independência e autonomia.

Se olharmos para o mundo ao nosso redor, veremos que ele está louco. Ele está tomado pela insanidade. E essa insanidade é exatamente em relação a essas coisas citadas aqui.

Olhe para como o mundo tem lidado com o sexo! Pornografia, prostituição, vícios, e agora essa desconstrução, essa tentativa de ignorar os padrões criados por Deus!

Olhe para como temos lidado com o dinheiro! Para muitos o dinheiro se tornou um deus. A busca por sucesso profissional e acadêmico se tornou a principal coisa da vida de muitos cristãos. Mais importante que seu crescimento como pessoa diante de Deus. Quantas vocações não são minadas, apagadas, por causa do ídolo do dinheiro?

Essas coisas não procedem de Deus. Elas são a própria oposição a Deus. São, em última instância, idolatria. A raiz de toda cobiça, de todo mau desejo, é a idolatria. É quando buscamos em alguma coisa a satisfação plena que apenas Deus pode oferecer.

O MUNDO NÃO VALE A PENA

O segundo motivo pelo qual não devemos amar o mundo é que ele não vale a pena (v. 17): “ Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.”

O mundo passa. As coisas do mundo passam. É tudo vaidade, como disse Salomão. É tudo erva, que seca e o vento leva, como já disse Isaías.

Essa luta que há em nós, entre a nossa cobiça e a lei de Deus, passará. O pecado morrerá. Todo o tempo que perdemos buscando satisfação no mundo será tempo perdido. Todo o tempo em que buscamos a satisfação pela em Cristo, esse sim será aproveitado.

É essa a ideia aqui: o mundo passa, nós permanecemos. O mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus viverá para a eternidade.

Às vezes corremos para o mundo em busca de alegria. Trocamos Criador por criatura, em busca de um pingo de felicidade. Buscamos nas coisas, no dinheiro, no sexo, nos vícios, no entretenimento, nas filosofias e ideologias vãs, o paraíso que só Deus pode dar. Fazemos isso porque, na verdade, não encontramos o que estamos procurando.

Há uma música da banda U2, é uma manda que eu gosto muito, cujo nome (traduzido) é: “Eu ainda não encontrei o que estou procurando”. Nessa música há versos que dizem:

“Você quebrou os elos, soltou as correntes

Você carregou a cruz

E toda a minha vergonha

Toda a minha vergonha

Você sabe que eu acredito nisso

Mas eu ainda não encontrei

O que estou procurando”

Às vezes é essa a nossa realidade. Talvez você creia em Deus. Você sabe o que Cristo fez na cruz. Você sabe o que está errado na sua vida. Mas não é o suficiente. Você ainda não encontrou satisfação, então vive buscando satisfação em outro lugar. Você ainda não encontrou alegria. Você vive buscando algo que te faça se sentir vivo, porque, em suma, você ainda acha que esta vida é tudo o que realmente importa.

Sabe o que falta? Use os óculos da eternidade. Veja a vida tendo em perspectiva o que realmente importa: aquilo que durará para sempre. O mundo não vale a pena. Desejar o que você não pode ter não vale a pena. Isso passa. Somente a Palavra do Senhor dura para sempre. Somente aquilo que foi feito pela fé dura para sempre.

Que em 2018 você dê valor ao que realmente importa. Que tenha a certeza de que é perdoado. Que desfrute mais do conhecimento de Deus. Que esse ano você leia mais a Bíblia! Que você ore mais! E que busque santificação. Que obtenha vitória contra o mal. E que, por fim, se afaste do perigo do amor ao mundo, poiso mundo não vale a pena. Feliz ano novo!

REFERÊNCIAS

CALVIN, J. 1 John 2 Calvin’s Commentaries. Disponível em: <http://biblehub.com/commentaries/calvin/1_john/2.htm>. Acesso em: 28 dez. 2018.

SMALLEY, S. 1,2,3 John. Word Biblical Commentary. Revised edition ed. Nashville: Thomas Nelson Inc, 2008.

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