O teste mais importante de todos

3 Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. 4 Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade. 5 Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: 6 aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou. 7 Amados, não vos escrevo mandamento novo, senão mandamento antigo, o qual, desde o princípio, tivestes. Esse mandamento antigo é a palavra que ouvistes. 8 Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha.

Você já passou por um grande teste em sua vida? Pense em algo como um vestibular. A expectativa de passar pelo vestibular é um verdadeiro tormento e causa de ansiedade para muitos jovens! Tantas expectativas, cobranças, a família pressionando, nós mesmos nos pressionando. Para quem já passou dessa fase, há outros testes. Concurso público, entrevistas de emprego, tentativas de promoção, a luta diária para manter as contas em dia…

É necessário, para nossa sanidade mental, saber que nenhum desses testes definem que nós você realmente é. Você não é sua nota de vestibular. Você não é o que você faz, o que você produz (por mais que o materialismo queira dizer que sim). Essas coisas são circunstanciais e, felizmente, sempre haverá uma outra chance, e a vida sempre continua.

Mas… e se houvesse um teste cujo resultado define quem realmente nós somos? Isso seria algo assustador, não seria? Reprovar nesse teste seria algo realmente aterrador, porque isso seria algo que realmente mexe com sua identidade, com quem você é.

É mais ou menos que João faz na sua carta. Em 1Jo 2.3-8 o apóstolo apresenta uma lista de indicadores de quem realmente você é: alguém que tem ou não comunhão com Deus. Quem você é para Deus?

O reformador João Calvino diz, na primeira frase das Institutas, que o único conhecimento que importa termos nessa vida é o conhecimento de Deus e de nós mesmos. Conhecer a Deus é algo tão importante que Jesus diz que a vida eterna é conhecer a Deus.

E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).

Conhecer a Deus é a melhor coisa que podemos fazer na vida, e é a única coisa em que podemos nos gloriar.

“Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas, mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer” (Jr 9.23)

O teólogo J. I. Packer nos diz assim, em seu livro O Conhecimento de Deus:

“Assim que você toma consciência de que a principal razão para sua estada aqui é conhecer a Deus, a maioria dos problemas da vida se enquadra no seu devido lugar.”

Como posso então ter certeza de que conheço verdadeiramente a Deus? Quais são então as marcas do conhecimento de Deus?

A primeira marca do conhecimento de Deus é a obediência.

João diz que há uma maneira de saber se temos conhecido a Deus. Se um dia nós realmente conhecemos a Deus, e isso deixou marcas em nossas vidas, então guardamos os seus mandamentos. Veja os versículos 3 e 4.

3 Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se guardamos os seus mandamentos. 4 Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade.

Até agora, João lidou com um problema doutrinário na igreja. Haviam hereges na igreja que diziam que negavam a encarnação de Cristo, que negavam a doutrina do pecado, e com isso negavam o próprio evangelho.

Agora, João lida com um problema moral. A doutrina doutrina dos pré-gnósticos trazia uma separação total entre o que se crê e o que se faz. Por isso João diz algo como: Você não pode dizer que conhece a Deus e viver de qualquer maneira. Você não pode fazer essa separação. Você não pode dizer que conhece a Deus se não guarda, hoje, os seus mandamentos. Deve haver uma coerência entre o que se diz e o que se faz.

Os que espalhavam falsa doutrina causavam enorme confusão na igreja. E a confusão não era apenas doutrinária, mas também moral. É isso que um mentiroso faz na igreja. Ele causa confusão. Ele gera intriga. Ele escandaliza. O que João está dizendo aqui é: Não acredite neles! A verdade não está neles! 

Uma boa maneira de avaliar qualquer espécie de nova moda teológica que chega às igrejas é avaliando suas obras. Se um certo movimento arroga ser a verdadeira manifestação do reino de Deus, mas o que ele gera entre os seus não é mais piedade e obediência, então esse movimento deve ser desacreditado.

Se até aqui João tem dito: “Não acredite em quem nega o pecado. Não acredite em quem nega o Filho”, agora João diz: “Não acredite em quem não tem a conduta correta. Não acredite em quem diz até mesmo a verdade sem praticá-la.”

Então João continua, veja o versículo 5, parte a:

5 Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus.

João está dizendo que quem guarda a Palavra demonstra que o amor de Deus tem sido aperfeiçoado, desenvolvido, completado. Se um dia Deus começou uma obra na vida de uma determinada pessoa, e essa obra gera fruto no presente, esse fruto é a obediência.

Muitas pessoas têm um entendimento equivocado do que é o amor de Deus em nós. Hoje a palavra “amor” traz uma ideia de uma aceitação sem qualquer condição. É a ideia do amor incondicional. As pessoas dizem: “Você tem que me aceitar como eu sou. Eu sou assim, não vou mudar, e quero que as pessoas me amem sem qualquer tipo de exigência”.

Se há uma coisa que o amor de Deus não é, é um amor sem exigências. O amor de Deus tem exigências. Claro, não há nenhum pré-requisito para nós. Ele não viu nada de bom em nós para nos salvar. Mas assim que estamos num relacionamento de aliança com Deus, ele nos faz exigências morais. 

Olhe para a história de Israel. Deus libertou Israel do Egito. Deus mostrou a Israel o seu poder. Deus mostrou o quanto é Santo. E depois disso, ele fez exigências: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirou da escravidão na terra do Egito. Não terás outros Deuses diante de mim.” (Ex 20.2)

Deus nos ama, e por isso ele quer o melhor para nós. E não há nada melhor em tudo que existe do que mesmo. O melhor padrão que há para vivermos nossas vidas é o padrão da própria santidade de Deus. O resultado de um relacionamento com Deus em nós é santidade. A vida de Deus em nós é santidade.

A resposta ao amor de Deus é a obediência. E a consequência natural do nosso amor por Deus é obediência. Lembre-se do que Jesus diz no evangelho de João, capítulo 14: “Se me amardes, guardareis meus mandamentos.” “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.

A obediência aos mandamentos é uma direção dada pelo próprio Deus para vida do crente. O crente que é amado por Deus e que ama a Deus cresce em obediência, e tem a santidade como o alvo de sua vida. Isso não significa que não haverá tropeços e quedas pelo caminho. João acabou de dizer, no capítulo 1, que quem diz que não tem cometido pecado está mentindo. Ele não se contradisse aqui. A questão é que obedecer os mandamentos é a inclinação do coração do crente. A santidade será um anseio perene, é uma vontade duradoura no coração do crente.

O que tudo isto tem a ver conosco? Bem, talvez tudo isso esteja parecendo algo muito bonito, muito ideal, mas distante da nossa realidade. Talvez, quando está atolado de preocupações, de tarefas, ocupações, metas; quando está envolvido com diversos pecados e vício, ou com aquele seu pecado de estimação; quando o pouco tempo que te resta é usado para algum tipo de entretenimento anestesiante; talvez “aí santidade” não pareça ser um desejo perene pra você.

Talvez o pensamento que vem em sua cabeça seja “é muito mais fácil falar do que fazer”. Talvez você pense “tudo isso é bonito na teoria, mas na prática a teoria é outra”. Irmão, eu sei que você pensa isso, porque eu também penso assim às vezes. Todos nós somos um pouco gnósticos às vezes.

Tudo isso pode ser verdade, mas não podemos fugir do que João nos diz: “aquele que diz que conhece a Deus e não guarda os mandamentos é mentiroso”. O que você diz e o que você faz precisa andar junto. Se não anda junto, você é mentiroso.

Por que é tão difícil acreditar nisso? Porque não entendemos o suficiente a mudança que a salvação opera em nós. Porque ainda temos dificuldade em acreditar de verdade no poder de Deus. Você crê na Bíblia, a Palavra de Deus? Você crê que Jesus morreu por você? Você crê que o Espírito Santo habita em você? Você crê que Deus regenerou você e mudou a inclinação do seu coração? Você crê que você nunca é tentado além do que pode suportar? Então por que você não crê que é possível abandonar aquele pecado? Por que então você não crê que é possível guardar os mandamentos?

É claro que ninguém pode dizer: “Eu consigo obedecer os mandamentos por minha própria força! Olha como eu sou bom!”. Não. Você não consegue pela sua própria força.

Contudo, você também não pode simplesmente dizer “Você sabe que eu não consigo, por isso permaneço nesse pecado.” De fato, se você é um cristão, Deus está trabalhando em você. E realmente, você não deve ficar se martirizando por causa do pecado, quando Deus já te perdoou. Mas isso não pode ser desculpa para uma atitude de tolerância nossa para com o pecado.

Sabemos que a obediência aos mandamentos é algo que é produzido por Deus em nós. Sabemos também que nada podemos fazer se ele não trabalhar em nós. Também é verdade que Ele opera em nós o querer e o realizar. Contudo, tudo o que Deus precisa fazer para que nós caminhemos em santidade já está feito.

  1. Ele já te colocou num relacionamento de aliança com Ele.
  2. Ele já revelou a sua vontade na sua Lei, nas Escrituras.
  3. Ele já te deu o Espírito Santo.
  4. Ele já pôs em seu coração uma inclinação para sua vontade.

Se você já conhece a Deus, o que falta para você viver segundo a vontade dele? Da parte de Deus, não falta nada. Falta você viver de acordo. Falta você lutar. Falta você buscar conhecer mais a Deus. Conhecer seu caráter, sua vontade, sua Lei. Falta você obedecer os mandamentos, fugir da tentação, resistir ao diabo. Quando você duvida disso, você não está duvidando de si mesmo, mas do próprio Deus.

A segunda marca do conhecimento de Deus é o seguir a Cristo.

Nós vimos que a primeira marca do conhecimento de Deus é a obediência. A segunda marca é ser um discípulo de Cristo. Veja os versículos 5, parte b, e 6:

5b Nisto sabemos que estamos nele: 6 aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.

Agora temos a segunda declaração de João, que vale igualmente para todos os crentes Se estamos em Cristo, andamos, hoje e continuamente, como Cristo andou.

Na cultura judaica, havia uma estrutura de ensino que era formada por um mestre e um discípulo. A tarefa de um discípulo era aprender tudo o que o seu mestre tinha para ensinar. O aprendizado se dava pela transmissão oral e pela imitação. Um discípulo seguia o mestre aonde ele fosse. Um discípulo decorava tudo o que o mestre dizia. O aprendizado se dava por transmissão verbal. O discípulo também imitava seu mestre em todas as coisas. Depois de terminado seu treinamento, o discípulo se tornava mestre e fazia novos discípulos.

Jesus ensinou assim seus discípulos. Ele era chamado de mestre, e teve 12 discípulos que o seguiam onde quer que ele fosse. Por fim, esses discípulos foram comissionados a fazer novos discípulos de Jesus, e a ensiná-los tudo que Jesus tem ensinado. Isso é discipulado.

 

E o que é ser um discípulo? Ser discípulo é seguir a Cristo. É imitar a Cristo. É ter o caráter de Cristo como alvo da minha vida. Quando Cristo nos comissiona a fazer discípulos, ele está nos dizendo que devemos ensinar outras pessoas seguirem a Cristo.

Os falsos mestres, a quem João combate, não seguiam a Cristo. Eles não obedeciam os mandamentos, como Cristo obedecia. Eles faziam de si mesmos mestres, e guiavam outras pessoas a um caminho distante. Eles até usavam o nome de Cristo. Mas não criam no Cristo das Escrituras. Eles tinham o seu próprio ideal de Cristo. Eles tinham seu “deus pessoal”.

O teste que precisamos aplicar em nós mesmos é: seguir a Cristo tem sido o maior interesse da minha vida? Perceba que quando nós temos um interesse em algo, esse algo se torna parte indispensável de nossa vida. Pense, por exemplo, na relação de um torcedor de futebol com seu time. Tenho uma amiga que é torcedora do Corinthians. Ela é uma torcedora compromissada. Assiste todos os jogos e tem carteirinha. Ela segue os jogadores do time no Twitter e vive retuitando, compartilhando o que eles escrevem. E imagina no que acontece se alguém falar mal do time? Ela o defende com unhas e dentes.

Você segue a Cristo dessa forma? Você veste a camisa de Cristo? Você propaga sua mensagem? Você defende a honra de Cristo quando é atacada? Se não, isso deveria servir de alerta para você. João está dizendo que aquele que permanece em Deus anda como ele andou, não por seus próprios méritos, ou porque é capaz, mas porque é isso que acontece com aqueles que são perdoados e purificados por Jesus.

Veja, é impossível para nós não seguir os passos de alguém. Se Cristo não é o maior interesse da sua vida, outra coisa toma o seu lugar. Talvez seja um ideal do que é sucesso para você. Talvez seja o ideal da realização profissional… acadêmica… Talvez seja o ídolo da autenticidade, o ideal de “ser você mesmo”. A questão é: se não temos seguido os passos de Cristo, temos seguido os passos de quem? Qual é o ídolo do meu coração que tem tomado o lugar de Deus na direção da minha vida?

Ser cristão não é ter uma religião aos fins de semana. Não é ter um “lado espiritual”. Existe um estilo de vida que é esperado de um cristão. É uma vida de obediência, serviço, submissão e sacrifício, como foi a vida de Jesus. É uma vida em obediência aos mandamentos e à lei do amor.

O cristianismo não é apenas uma religião, mas uma maneira totalmente nova de viver, conforme os princípios do reino vindouro. Essa maneira nova de viver é na verdade uma maneira renovada de viver. É uma recuperação do propósito de Deus para o homem, desde a Criação do mundo, antes da corrupção do pecado. E em Cristo temos a perfeita manifestação desse propósito: porque ele é Santo. Porque ele é puro. Porque ele não tem pecado.

É por isso que João diz que “as trevas vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha”. Essa linguagem de “luz” e “trevas” tem a ver com a ideia de que o mundo presente é dominado por “trevas”, e a era que está por vir é a era da “luz”. A luz simboliza a representação do reino de Deus. A luz já está aqui. Jesus já veio. O Reino já foi inaugurado, já irrompeu no mundo. Embora devamos esperar seu estabelecimento definitivo, já podemos viver de acordo com seus valores. Viver dessa maneira envolve tudo o que somos e tudo o que temos. O meu trabalho passa a ser para Deus. Eu cuido da minha família porque ela é projeto de Deus. Eu estudo porque quero conhecer todas as coisas que Deus fez.

A terceira marca do conhecimento de Deus é o amor.

Nós vimos que a segunda marca do conhecimento de Deus é o seguir a Cristo. A terceira marca do conhecimento de Deus é o amor.

Que mandamento é esse no qual devemos andar? E como é essa vida que vemos em Jesus? Veja o versículo 7 e 8:

7 Amados, não vos escrevo mandamento novo, senão mandamento antigo, o qual, desde o princípio, tivestes. Esse mandamento antigo é a palavra que ouvistes. 8 Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha.

João não está iniciando um mesmo assunto, mas ele está abrindo um parêntese, para explicar melhor a que mandamento ele se refere. Aqui João usa um paradoxo. O mandamento não é novo. O mandamento a que ele se refere é um mandamento antigo, mas também é um mandamento novo. Como assim?

O mandamento é antigo, e foi dado por Deus desde o princípio. É a Lei revelada em Moisés e nos profetas. É o conteúdo inteiro da vontade de Deus. Tudo o que Deus revelou por meio dos profetas, na Lei de Moisés, em todas as promessas que fez a Adão, Noé, Abraão, Moisés, Davi. Tudo isso é o mandamento de Deus. É sua palavra de autoridade. É a revelação de sua vontade.

O mandamento é antigo e também é novo, pois o que foi revelado desde o princípio agora é revelado plenamente na pessoa de Cristo. Jesus obedeceu os mandamentos. Ele é a revelação perfeita da pessoa e do caráter de Deus em forma humana. Ele é totalmente Santo, e mostrou como deve ser a santidade na vida humana. E ele é o cumprimento das promessas de Deus para o seu povo.

João diz que isso que é verdadeiro em Cristo é verdadeiro em nós. É esse mandamento que guardamos quando somos discípulos de Cristo. A terceira condição de João é o amor aos irmãos. Veja os versículos 9 a 11:

9 Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas. 10 Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço. 11 Aquele, porém, que odeia a seu irmão está nas trevas, e anda nas trevas, e não sabe para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos.

Aqui João continua buscando evidenciar as marcas do verdadeiro conhecimento de Deus, com o objetivo de combater os falsos mestres. Além de negar a doutrina do pecado e de não obedecer os mandamentos, esses falsos mestres também quebravam a comunhão da igreja. Por se considerarem detentores de um conhecimento místico especial, alguns grupos se isolavam do restante da igreja.

Uma das consequências de um entendimento insuficiente da doutrina do evangelho e da graça de Deus, e uma visão elevada de si mesmo, é o desprezo aos irmãos. Se eu entendo o quão pecador e necessitado da graça sou, e o quão misterioso é o fato de um Deus Santo nos amar, não resta espaço para desprezo e julgamento dentro da igreja.

Comunhão não é algo que promovemos. Não é algo que fazemos. Comunhão é algo que Deus faz. Não há mais nada que reúna verdadeiramente a igreja senão a união da igreja com Cristo. Não são almoços, jantares, encontros, que farão uma igreja unida. Essas coisas são boas para a igreja desfrutar da verdadeira comunhão, fundada na verdade.

Comunhão é algo estabelecido no próprio Deus. Só há comunhão entre quem conhece verdadeiramente a Deus. É o que João vem dizendo desde o início da sua carta até aqui.

Aquele que não conhece a Deus logo demonstrará isso. O amor entre irmãos da fé não deve ser fundado em afinidades, em interesses em comum, mas no próprio fato de que enxergamos Cristo uns nos outros. Cristo morreu pelo meu irmão. Quem sou eu para desprezá-lo? Quem sou eu para condená-lo?

Hoje há um fenômeno crescente dos chamados “desigrejados”. São pessoas que se decepcionaram com a igreja, e não desejam participar de nenhuma igreja “institucional”. Há pessoas que acompanham culto pela internet, leem a Bíblia em casa (e olhe lá) e tiram dúvidas pelo YouTube. Pergunte a uma delas “Por que você não vai a uma igreja?” e ela lhe dirá “Porque lá só tem hipócritas. Porque eles não me acolhem. Porque hoje eu entendi que sou igreja.”

Devemos ser compreensivos com o fato de que líderes abusivos causam grande estrago na vida de muitos crentes, e voltar a uma igreja pode ser difícil a quem já sofreu tanto. Por outro lado, o que João diz deve ser um alerta a esses crentes também. Será que por detrás da minha resistência a me juntar a uma igreja não se esconde a falta de amor a irmãos? Será que o meu amor-próprio é tão grande que eu não posso me juntar a uma comunidade que não seja do jeito que eu quero?

Esse tipo de atitude não está só do lado de fora da igreja. No capítulo 14 de Romanos, vemos um exemplo de correção a uma igreja que brigava por causa de comer ou não comer carne. Paulo diz exatamente isto: “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu?… não faças perecer aquele a favor de quem Cristo morreu.” Paulo está falando a uma igreja em vez de aconselhar mutuamente de forma amorosa, passou a desprezar o irmão, por quem Deus morreu.

O exemplo máximo de amor por irmãos temos em Jesus Cristo. Jesus diz: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.” (Jo 15.13). Jesus deu a sua vida em favor daqueles que quis salvar.

Quantas vezes você murmurou por conta de uma atitude de seu irmão, ao invés de falar com ele amorosamente? Quantas vezes você julgou as intenções de seu irmão de forma impensada? Quantas vezes se achou superior que seu irmão, seja por questões materiais, por sua conduta, ou até mesmo por servir mais na igreja?

Quando faz isso, está demonstrando exatamente o oposto do tipo de sacrifício que Jesus demonstrou. Quando faz isso, ainda vive segundo os princípios das trevas deste mundo. Este mundo sim, é competitivo, é rancoroso, é cheio de intriga e murmuração. O que em seu coração é mais importante que a obra de Deus?

Se houver algo em seu coração que tem primazia sobre a obra de Cristo, irmão, corra para Cristo. Reveja suas prioridades. Não pague para ver. Busque o conhecimento de Deus, pois esse é o maior objetivo que podemos ter nesse mundo. Esse é o maior teste de todos.

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