A restauração de Davi

Recentemente, postei aqui no blog algumas lições que podemos aprender com o pecado de Davi, relatado em 2 Samuel 11. Vimos que a queda de Davi é como um espiral. Ele cada vez foi mais fundo na sua perdição. Negligência, cobiça, adultério, corrupção, assassinato.

Como é possível que esse Davi seja chamado de homem segundo o coração de Deus? Como é possível que ele esteja na galeria dos heróis da Fé, lá em Hebreus? Ele com certeza chegou numa situação tão baixa que sem dúvida, não poderia sair de lá.

Foi Deus quem restaurou Davi de seu pecado. Também é Deus que nos restaura de nossas quedas. Mas como foi que Deus restaurou Davi? E como isso se reflete em nossa experiência?

Abra sua Bíblia em 2 Samuel 12, e acompanhe comigo. 🙂

Deus nos acusa o pecado

A primeira coisa que Deus faz para restaurar Davi é trazer luz ao seu pecado. Veja os versículos de 1 a 12.

1 O SENHOR enviou Natã a Davi. Chegando Natã a Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. 2 Tinha o rico ovelhas e gado em grande número; 3 mas o pobre não tinha coisa nenhuma, senão uma cordeirinha que comprara e criara, e que em sua casa crescera, junto com seus filhos; comia do seu bocado e do seu copo bebia; dormia nos seus braços, e a tinha como filha. 4 Vindo um viajante ao homem rico, não quis este tomar das suas ovelhas e do gado para dar de comer ao viajante que viera a ele; mas tomou a cordeirinha do homem pobre e a preparou para o homem que lhe havia chegado. 5 Então, o furor de Davi se acendeu sobremaneira contra aquele homem, e disse a Natã: Tão certo como vive o SENHOR, o homem que fez isso deve ser morto. 6 E pela cordeirinha restituirá quatro vezes, porque fez tal coisa e porque não se compadeceu.

7 Então, disse Natã a Davi: Tu és o homem. Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel e eu te livrei das mãos de Saul; 8 dei-te a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em teus braços e também te dei a casa de Israel e de Judá; e, se isto fora pouco, eu teria acrescentado tais e tais coisas. 9 Por que, pois, desprezaste a palavra do SENHOR, fazendo o que era mau perante ele? A Urias, o heteu, feriste à espada; e a sua mulher tomaste por mulher, depois de o matar com a espada dos filhos de Amom. 10 Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher. 11 Assim diz o SENHOR: Eis que da tua própria casa suscitarei o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres à tua própria vista, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com elas, em plena luz deste sol. 12 Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei isto perante todo o Israel e perante o sol.

O relato aqui é uma continuação direta de 2 Samuel 11.27, onde diz que o pecado de Davi foi mau aos olhos de Deus. Davi pecou abusando de seu poder, enviando cartas pra lá, ordens pra cá, e ficou impune. Agora, é Deus que envia seu profeta para tornar conhecida a sua sentença.

Natan é enviado por Deus, e corre grande perigo aqui. Não é fácil confrontar o rei. Se Davi não se arrepender, Natan pode ser morto. E talvez por isso, ele usa de sua criatividade, contando uma parábola que muito lembra as parábolas de Jesus (v. 1).

Uma parábola, um espelho

Natan começa apresentando os personagens, e nos dando a situação inicial. Temos um homem rico, e um homem pobre. (v. 2-3) Assim como há um contraste entre Davi e Urias no capítulo anterior, aqui temos uma comparação, um contraste, entre o homem rico e o homem pobre:

  1. O homem rico tem muito (v. 2). Muito gado, muitas ovelhas.
  2. O homem pobre tem apenas uma coisa: sua ovelhinha (v. 3), que cresce com ele e com seus filhos, come da sua porção, dorme em seus braços e lhe é preciosa.

A descrição se encaixa bem com com Davi e Urias. Davi recebeu de Deus o trono e o domínio sobre Israel e Judá. Já Urias tinha apenas a Bate-seba, que era a sua preciosidade.

Agora, Natan insere a crise na história. Vem um viajante até o homem rico (v. 4). O rico deseja ser hospitaleiro para com o viajante, mas não deseja tomar do seu próprio rebanho para isso, e então decide tomar o único bem do pobre homem. Ele quer se fazer de generoso, mas sua generosidade é só aparência! Como Davi, e lança mão do bem do outro. O ato é descrito de uma forma brusca, direta, seca.

O crime descrito na parábola não é exatamente igual ao crime de Davi. Um crime de roubo, por mais cruel que fosse, não exigia pena de morte. Um roubo exigia sim uma restituição com quatro vezes a mais (lembre-se do caso de Zaqueu em Lucas 19). Mas a atitude do coração de Davi é como a do homem rico da parábola. Ele, tendo tudo, roubou o único bem precioso de Urias de forma violenta.

Davi se envolve na história (v. 5). O texto diz que ele ficou irado, furioso! A parábola teve um efeito dramático para Davi, que disse: “O Senhor vive, e esse homem deve morrer! E deve restituir quatro vezes o que roubou!” Ele jura por Deus que esse homem deve morrer, e muito embora isso seja apenas uma reação dramática, e não uma sentença, isso é revelador. A pena correta para esse crime não é a morte, mas a que Davi diz logo depois: “e restituirá quatro vezes o que roubou”. Por que Davi condena à morte o homem rico? E por que o faz de forma tão dramática, jurando em nome de Deus?

Por que Davi condena à morte o homem rico? E por que o faz de forma tão dramática, jurando em nome de Deus?

A parábola de Natan ofereceu a Davi um espelho, uma tela de projeção. E ele se viu nela, perfeitamente. Ao condenar outro, na verdade Davi está condenando a si mesmo. O mesmo Davi que minimizou a gravidade de seu pecado de adultério e assassinato, crimes dignos de morte, agora condena a outro, exageradamente, de forma completamente desproporcional.

Quantas vezes não fazemos isso? Quantas vezes, culpados de pecado, não agimos como verdadeiros santarrões? Perceba que um dos sinais de alguém que está perdido espiritualmente, mas quer manter as aparências, é o apego ao legalismo, a um espírito excessivamente crítico. Sua justiça própria tenta disfarçar sua insegurança.

O julgamento

Natan diz a Davi: “Tu és o homem”. Essa declaração é dita com grande ênfase. Davi é colocado de frente com o próprio pecado. Essa declaração provavelmente fez Davi cair em si, de uma forma repentina, entendendo os paralelos da parábola e da sua própria vida. Então Natan começa a declarar a acusação formal contra Davi.

Perceba que aqui é o próprio Deus falando (v. 7): “Assim diz o Senhor, Deus de Israel”. Perceba que ele puxa para si esse julgamento:

  1. Foi Deus quem deu tudo a Davi (v. 7-8). Ele ungiu Davi como Rei. Ele o livrou de Saul. Ele deu a Davi domínio sobre o Reino.
  2. Foi Deus quem foi ofendido com o pecado de Davi (v. 9). Davi desprezou a palavra de Deus. Davi fez o que era mau aos olhos de Deus.
  3. É Deus quem executará a sentença contra Davi (v. 10-12). Ele não tirará a espada da casa de Davi (ele não diz que dará fim a casa de Davi, pois prometera que sua dinastia seria eterna, mas a espada sempre estará sobre essa casa). É ele quem vai suscitar o mal contra Davi. É ele quem envergonhará Davi publicamente.

É Deus quem começa a agir para nossa restauração, a partir do momento em que nos permite conhecer nosso estado de pecaminosidade.

Deus nos faz conhecer nossa situação de pecado de duas maneiras. A primeira delas é a sua revelação, a sua Lei. Antes de conhecer e a sua Lei, estávamos na ignorância. Quando conhecemos a Lei, conhecemos a nossa pecaminosidade e a nossa condenação. A lei serve como um professor para nós, como um tutor que nos conduz a Cristo (Gálatas 3.24).​

De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé.

Por isso, não podemos desprezar a palavra de Deus. Quando Davi pecou, ele desprezou a palavra de Deus (v. 9). A palavra de Deus nos alerta para o pecado, e também mostra nosso estado. Ela funciona para nós como um espelho. Ela é um meio de graça. Muitas vezes negligenciamos a leitura das Escrituras, e dizemos que é porque andamos ocupados, ou porque temos cansaço, preguiça. Mas muitas vezes o real motivo é que ela nos mostra quem realmente somos. Ela nos leva à culpa, ao arrependimento. Ela nos contraria. Ela mostra aquilo que não queremos ver.

A segunda maneira pela qual ele nos faz saber de nossa situação de pecado é o sentimento de culpa. Tanto crentes quanto descrentes podem sentir o peso de estar distante da vontade de Deus. Para o descrente, esse peso é para condenação, mas para o crente, é para o arrependimento. O Salmo 32.3-4 nos mostra que Davi tinha um senso de pesar enquanto escondia seu pecado.

Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos

pelos meus constantes gemidos todo o dia.

Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim,

e o meu vigor se tornou em sequidão de estio.

Somos acusados pelo Espírito Santo quando pecamos. O Espírito Santo que habita em nós se entristece quando pecamos. Quando pecamos, entristecemos nosso pai, e isso deve ser uma tristeza para nós.

Davi esteve inseguro da permanência de sua aliança para com Deus. No Salmo 51.11-12, Davi ora para que Deus não o repulse de sua presença, nem remova o Espírito Santo.​

Não me repulses da tua presença,

nem me retires o teu Santo Espírito.

Restitui-me a alegria da tua salvação

e sustenta-me com um espírito voluntário.

O sentimento de culpa, para o crente, é algo necessário. O sentimento de culpa deve nos levar ao arrependimento. Enquanto guardamos esse sentimento e não confessamos o pecado, perdemos a alegria da salvação e ficamos inseguros quanto ao amor de Deus por nós. Isso pode nos levar a ficar endurecidos, amargurados, e até mesmo à depressão.

Podemos dizer que há dois tipos de sentimento de culpa. Existe aquele sentimento que nos leva ao desespero. Ele nos acusa daquilo que já fomos perdoados. Esse sentimento deve ser abandonado. A solução é crer no perdão que Deus já nos deu. Mas também existe o sentimento de culpa que nos leva ao arrependimento. A forma correta de lidar com ele é confessar os pecados, é admitir o erro sem justificativas. Esse sentimento não deve ser sublimado, mas deve nos levar à crucificar nossos pecados junto com Cristo.

É um ato de graça o fato de que Deus nos faz perceber a gravidade do pecado, nos levando ao arrependimento. Não devemos negligenciar isso. A forma correta de lidar com a culpa não é o desespero, nem tentar sublimar ou se esconder, mas confessar prontamente nosso pecado. É Deus quem produz em nós o arrependimento verdadeiro. Ele escuta nossa confissão.

Deus produz em nós arrependimento verdadeiro

O segundo ato de Deus para a restauração de Davi é produzir arrependimento verdadeiro em seu coração. Veja o versículo 13 (2Sm 12.13).

Então, disse Davi a Natã: Pequei contra o SENHOR. Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás.

Davi confessa prontamente a Natan. O rei era a autoridade suprema em Israel, abaixo de Deus. Ainda que Natan seja um enviado de Deus, ele ainda era seu súdito. Davi está numa posição humilhante aqui.

Ele faz uma confissão pequena, sem qualificações. Ele só diz: “Pequei contra o SENHOR”. É uma confissão de quem realmente está arrependido.

O arrependimento falho de Saul

A grande diferença entre Davi e Saul, o rei anterior que foi reprovado por Deus, não é o pecado que cometeram. Davi cometeu um pecado tão grave quanto o de Saul. O que diferencia os dois é o arrependimento verdadeiro de Davi.

A confissão de Davi é diferente das confissões de Saul. Davi não faz nenhuma ressalva, nenhuma qualificação. Ele admite seu pecado, e só. Quando o livro de Samuel relata alguma confissão de Saul, mostra uma confissão relutante. Lá em 1Sm 15.24-26, Saul é repreendido pelo profeta Samuel. Ele não cumpriu completamente a ordem do Senhor a respeito dos amalequitas. Depois de muita relutância, Saul admite ter pecado, mas não sem dar uma justificativa.

Então, disse Saul a Samuel: Pequei, pois transgredi o mandamento do SENHOR e as tuas palavras; porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz. Agora, pois, te rogo, perdoa-me o meu pecado e volta comigo, para que adore o SENHOR. Porém Samuel disse a Saul: Não tornarei contigo; visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, já ele te rejeitou a ti, para que não sejas rei sobre Israel.

Apesar de admitir ter pecado, Saul ainda tenta jogar a responsabilidade sobre o povo. Ele diz: “dei ouvidos à voz do povo!” E ainda tenta manipular Samuel: “Vamos, perdoa meu pecado, vamos adorar o Senhor!” Samuel sabia que esse arrependimento é falso, e sabe que Deus o rejeitou. É como a justificativa de Adão: “Foi Eva que me deu o fruto!” Já aqui em 2Sm 12, o próprio Deus atesta o arrependimento de Davi, e perdoa seu pecado.

O arrependimento verdadeiro de Davi

O arrependimento de Davi é disposto a aceitar qualquer consequência que viesse. Ele não tenta manipular Natan. Ele não tenta se fingir de coitado. Não diz “foi mais forte que eu”. Ele sabe que, em última instância, pecou contra o próprio Deus. Ele sabe que o que vier de Deus, seja juízo ou clemência, deve ser aceito sem reservas.

Veja o Salmo 51.4. Davi admite que Deus será justo no teu falar e julgar. Esse é o sentimento de Davi no momento em que se arrepende.

Pequei contra ti, contra ti somente,

e fiz o que é mau perante os teus olhos,

de maneira que serás tido por justo no teu falar

e puro no teu julgar.

Sinais de arrependimento verdadeiro

Deus também gera em nós uma confissão verdadeira. Deus também escuta nossas orações de confissão. Ele não rejeita um coração quebrantado. Deus também nos poupa da morte que merecemos. Mas como é a verdadeira confissão?

Em primeiro lugar, a confissão verdadeira admite seu pecado. Ela simplesmente admite que pecou contra o Senhor. A confissão verdadeira não apresenta justificativas. Ela é um total abandono de qualquer recurso, de qualquer tentativa de justiça própria.

O arrependimento verdadeiro é humilhante. Davi se humilhou perante Natan. Ele abriu seu coração e revelou quem era: um rebelde. Davi abre mão de qualquer recurso. Ele diz: “Pequei contra o Senhor”, e só. E é por isso nós, muitas vezes, fugimos do arrependimento. É porque muitas vezes não queremos nos humilhar. Arrepender-se envolve admitir quem realmente somos. Isso é algo que deve matar o nosso orgulho. Deve matar toda altivez. Hoje em dia, muitos tentam justificar pecados dizendo que “é coisa de jovem… todo mundo faz… Foi mais forte que eu…”. Tentam desesperadamente manter alguma dignidade por conta própria.

Lembre-se que Saul manteve seu orgulho até o fim, e foi reprovado por Deus. Orgulho não leva ninguém a lugar nenhum. Lembre-se que muito melhor é ser aceito por Deus. Muito melhor é ser salvo, ser perdoado, fazer parte da família de Deus, ser amado de Deus.

Em segundo lugar, a confissão verdadeira espera o que vier. Ela está disposto a aceitar a disciplina. Não há tentativa de manipular ou de amenizar o que é merecido.

Quem se arrependeu de verdade não foge da disciplina, não foge da penalidade. Quando Zaqueu se arrependeu de sua corrupção, ele simplesmente resolveu pagar quatro vezes o que roubou. Por que muitas pessoas acham injusta a disciplina? Porque elas têm uma visão distorcida de quem Deus é, e de como o pecado ofende a Deus. Elas ainda pensam que o pecado não é tão ruim assim. Elas ainda pensam que Deus não pode ser tão severo assim.

Quando pecarmos, confessemos prontamente a Deus. É importante também confessar uns aos outros. Uma das melhores maneiras de lidar com pecados recorrentes, com vícios, é ter alguém a quem você possa prestar contas. Pode ser um amigo, irmão da igreja, ou mesmo seu conjugue. É muito fácil o pecado se esconder no meio do nosso orgulho, quando mantemos ele secreto.

Deus enviou Natan para repreender Davi. Muitas vezes, ele vai usar um irmão, ou pastor, ou presbítero, para repreender o seu pecado. Se alguém vier repreender seu pecado, não seja passional. Não seja barraqueiro. Aceita a repreensão, quando condiz com as Escrituras. Se for o caso de disciplina eclesiástica, aceitemos de forma submissa a disciplina que vem de Deus.

Deus executa sua justiça e misericórdia

O terceiro ato de Deus para a restauração de Davi é a execução de sua justiça e sua misericórdia. As duas coisas vêm juntas, são indissociáveis. Veja o versículo 14 (tradução minha):

Mas, posto que com isto desprezaste o SENHOR, também o filho que te nasceu morrerá.

Uma desonra tremenda!

O pecado de Davi é gravíssimo! Contudo, o texto diz que Deus o perdoou. Deus passou por cima. Deus “afastou” o pecado. Isso é algo incrível: que Deus pode poupar um tremendo pecador, que o desonrou.

Contudo, a desonra de Davi para com Deus foi grande. O texto nos dá esse peso. Ele diz que Davi desprezou completamente a Deus. O que Davi fez foi algo tremendamente odioso para Deus. E é por isso que seu filho morrerá. Esse pecado não pode simplesmente ser esquecido. Somente com um sangue derramado é que esse pecado pode ser perdoado.

No texto em hebraico, é possível perceber que o autor dá algumas ênfases, usando de repetições. Ele diz que Davi “desprezando, desprezou” ao Senhor, e por isso, o filho que lhe nasceu, “morrendo, morrerás”. A mesma ênfase que o texto dá para o ato de desprezo também dá para o juízo que vem de Deus. A punição de Deus tem como principal motivo a desonra que foi feita ao nome de Deus.

Uma graça escandalosa

Mas Deus fez algo espantoso no versículo 13 (2Sm 12.13). Ele diz que Davi vai viver. Ele não morrerá. Mas como pode ser isso? John Piper coloca da seguinte forma:

Bem desse jeito? David cometeu adultério. Ele ordenou assassinato. Ele mentiu. Ele “desprezou a palavra do Senhor”. Ele “desprezou a Deus”. E o Senhor “deixou de lado o seu pecado”. Que tipo de juiz justo é Deus? Você não deixa de lado de estupro, assassinato e mentira. Juízes justos não fazem isso.

Deus não pôde simplesmente ignorar o pecado de Davi. Ele não pode varrer o pecado para debaixo do tapete. A justiça de Deus faz parte do seu ser. Ele não pode ignorar o fato de que o ato odioso de Davi exige uma resposta. Deus perdoou o pecado de Davi, mas a justiça, a retribuição, deve ser feita.

Então Deus fere a criança, que a Bate-seba deu a luz. O texto não tem receio de dizer que é o próprio Deus quem fez isso. Ele transfere para o filho de Davi e Bate-Seba a punição legal que era destinada a eles. Assim, ao mesmo tempo, a justiça e a misericórdia foram feitas. Davi foi poupado, mas seu filho morreu em seu lugar.

Da mesma forma Deus fez conosco. Nós também desprezávamos a Deus. Também éramos merecedores de morte. Mas Deus foi misericordioso para conosco. Mas a misericórdia de Deus não significa anulação de sua justiça. É por isso que Jesus tomou sobre si a pena que era nossa. Na cruz, ao mesmo tempo, temos justiça e misericórdia. Veja em Romanos 3.25-26:

a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.

Uma restauração eficaz

Isso serve para restauração do relacionamento de Davi com Deus. Esse é o fim dos atos de restauração de Deus. Os versículos de 15 a 25 contam a história da morte da criança de Davi. Davi intercede pela criança que nascera de Bate-Seba, apelando para a misericórdia de Deus. Mas a decisão de Deus é irrevogável. Mas após a morte da criança, Deus consola Davi e Bate-Seba. Seu relacionamento está restaurado. Veja os versículos 23-25 (2Sm 12.23-25):

Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim. 24 Então, Davi veio a Bate-Seba, consolou-a e se deitou com ela; teve ela um filho a quem Davi deu o nome de Salomão; e o SENHOR o amou. 25 Davi o entregou nas mãos do profeta Natã, e este lhe chamou Jedidias, por amor do SENHOR.

Deus restaura nosso relacionamento com ele. Ele nos dá consolo. Ele nos dá sinal de verdadeira paz. Há três motivos para o consolo de Davi:

  1. Depois da morte de sua criança, apesar de suas contínuas orações de intercessão, Davi se restabelece (v. 23). Quando indagado pelo motivo de sua súbita recuperação, ele diz: “a criança não voltará dos mortos, mas um dia irei até ela”. Davi tinha plena certeza de que habitaria um dia na Casa do Senhor para todo o sempre (Sl 23.6) e se reencontraria com sua criança.
  2. Bate-seba agora é chamada pelo nome (v. 24). Até então, ela era chamada de “esposa de Urias”. E agora não há reprovação pelo fato de Davi ter se deitado com ela. O casamento dela com Davi agora é reconhecido, pelo autor e por Deus. Toda a dívida que eles tinham para com Deus foi paga. É um momento de recomeço para Davi e para Bate-Seba.
  3. Davi consolou Bate-Seba, e ela lhe deu um filho (v. 25). Tudo isso aconteceu no tempo certo para o consolo deles. Foi Deus quem providenciou isso. Deus continua cuidando de Davi. O nome da criança, Salomão, tem a raiz da palavra que significa “paz”. Deus dá a ele o nome de Jedidias, “amado pelo Senhor”. Esse é o filho prometido a Davi, que nasceria e construiria o templo. Agora eles tem paz com Deus, e a aliança de Deus com Davi continua.

Assim também, perdoados por Cristo, não há mais condenação para nós. Poderemos desfrutar da alegria da salvação. Toda a dívida foi paga. Seremos amados do Senhor para todo sempre. Um dia habitaremos na Casa do Senhor. A aliança com Deus não será cancelada.

Como eu disse no início, o sentimento de culpa é importante. Mas a culpa não deve durar para sempre. Deus não vira o seu rosto para sempre. Não importa qual seja o pecado. Não importa a gravidade. Não importa se foi muito escandaloso, se afetou a vida de tanta gente, se foi tão desprezível, odioso. A cruz é suficiente. O sacrifício vicário de Cristo é suficiente. Por isso podemos descansar no perdão de Deus. Por isso temos paz com Deus e esperamos o dia do consolo.

A história de todos nós

Deus restaurou a vida de Davi. Cada um de nós possui uma história diferente, e a forma como Deus lida conosco pode ter um roteiro próprio. A maneira como Deus trata o pecado de Davi é diferente da maneira que Deus tratou o pecado de Pedro (Jo 21.15-17). Mas a história de todos os crentes tem alguns pontos em comum:

  1. Também recebemos de Deus a má notícia, a notícia de nossa condenação. Não devemos fugir dela. Podemos lidar com a culpa indo em direção à Cristo, em direção ao arrependimento, à mudança de vida.
  2. Deus também gera em nós arrependimento verdadeiro. Também temos o coração apertado, até que confessamos nosso pecado. Deus ouve a nossa triste confissão. Deus perdoa nosso pecado. Por isso podemos confessar. Por isso podemos abrir mão do orgulho e nos humilhar perante ele.
  3. Deus também cobre a nossa dívida, lançando-a em outro. Ele é justo e misericordioso. Por isso, não há mais dívida. Ela não foi simplesmente cancelada, ela foi paga. Por isso, podemos ter confiança no perdão que Deus dá.

Que essa seja nossa experiência. Que, restaurados, possamos glorificar e nos alegrar em Deus, até o dia em que habitaremos em sua casa para todo o sempre. Amém.

Referências:

PIPER, John. God Forgives and Is Still Fair. Desiring God. (link)


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