O pecado e a cobiça – Lições Do Pecado De Davi [2]

Essa é a segunda parte de uma exposição em 2 Samuel 11. Acompanhe o blog e veja essa série completa.

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A segunda coisa que aprendemos com o caso de Davi e Bate-Seba é que o pecado começa no interior. Ele começa no pensamento. Olhe os versículos 2 a 5 (2 Samuel 11.2-5).

Uma tarde, levantou-se Davi do seu leito e andava passeando no terraço da casa real; daí viu uma mulher que estava tomando banho; era ela mui formosa. Davi mandou perguntar quem era. Disseram-lhe: É Bate-Seba, filha de Eliã e mulher de Urias, o heteu. Então, enviou Davi mensageiros que a trouxessem; ela veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela purificado da sua imundícia, voltou para sua casa. A mulher concebeu e mandou dizer a Davi: Estou grávida.

Um desejo proibido

Aconteceu numa tarde (v. 2). Davi tirou um cochilo à tarde, e depois resolveu passear pelo seu terraço. Era um passatempo no qual ele gastava algum tempo. Ele de lá de cima, viu uma mulher tomando banho. O texto diz que ela era mui formosa. É usada uma expressão que significa algo como “agradável aos olhos”. Davi foi vencido pela própria cobiça, por uma vontade de obter a mulher que era para ele um objeto de desejo.

Ele não apenas cobiçou, como também ignorou continuamente todos os sinais que o alertavam da imprudência desse ato. Ele perguntou a seus subordinados quem era aquela mulher (v. 3), e eles respondem: “Não é Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, o heteu?” É bem possível que o Eliã, de quem ela é filha, seja o filho de Aitofel, um dos conselheiros de Davi (2Sm 23.34). Urias também era um dos valentes de Davi. Seu desejo por ela resultaria tanto em adultério como também num escândalo na corte. Nada, porém, poderia parar o desejo ardente de Davi. Ele não teve nenhum domínio próprio.

Agindo como um ímpio

Ele mandou trazer Bate-Seba (v. 4). O texto não nos dá nenhuma dica sobre qual a reação de Bate-Seba. Não há como dizer se ela foi ou não conivente com o pecado de Davi. Mas o texto trata dela de forma distanciada, sempre se refere a ela como “a mulher”. Mas para Davi, pouco importa quem ela é ou o que ela quer. Ela é para ele apenas um objeto para sua satisfação pessoal.

É informado que ela havia acabado de se purificar da sua imundícia (v. 4). A tradução pode dar uma ideia de que isso foi depois da relação com Davi. Mas eu creio que essa não é a melhor forma de traduzir. Creio que aqui o autor quer mostrar que ela havia acabado de passar pelo tempo em que as mulheres se purificavam de sua menstruação. Naquele tempo, no período menstrual as mulheres não poderiam ser tocadas por seus maridos. Apenas depois de uma purificação, após o período, é que estariam cerimonialmente puras. Bate-seba acaba de se purificar, o que nos dá um sinal de que o filho que lhe nasceria não poderia ser de Urias.

Bate-Seba ficou grávida, e mandou avisar a Davi (v. 5). Ela corria o risco de ser condenada por adultério, e por isso receber a pena capital. Davi poderia sofrer a vergonha pública de ter feito algo tão grave. Embora nas nações vizinhas os reis sejam vistos como divindades, em Israel o rei deveria estar sujeito ao governo de Deus. Então Davi deveria dar um jeito nisso tudo.

Davi aqui agiu como um ímpio. As palavras que o próprio Davi escreveu acerca dos ímpios, no Salmo 36, cabem muito bem a ele mesmo.

Porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos
e lhe diz que a sua iniquidade não há de ser descoberta, nem detestada.

Davi agiu como um rei das nações vizinhas. Os reis tinham um pretenso direito de possuir a noiva de seus servos, na noite de núpcias. Davi, da mesma forma, possuiu sem peso na consciência a esposa de um de seus homens.

A batalha na mente

Todo pecado começa pela cobiça. Antes de roubar, matar, adulterar, ou mesmo idolatrar, você antes já cobiçou algo que não era seu de direito. Francis Schaeffer, no livro Verdadeira Espiritualidade, nos mostra que todo pecado começa no interior, na nossa mente. Paulo, na carta aos Romanos, diz que conheceu o pecado por meio da lei “não cobiçarás” (Rm 7.7). A primeira batalha que precisamos travar contra o pecado é dentro de nós.

“A Lei de Deus não é para quando está tudo bem, mas para os momentos de tentação.”

Essa é uma frase encontrada num romance do século 19, chamado Jane Eyre. Esse romance conta a história de Jane, uma moça que num dado momento recebe a proposta de um homem de ir morar com ele, ainda que ele, Sr. Rochester, não tivesse o direito de casar-se com ela. Ela está perdidamente apaixonada por ele, e é extremamente tentada, até o limite de suas forças.

Embora tentada pelo Sr. Rochester, a verdadeira batalha toda aconteceu, e foi vencida, em sua mente. Ela primeiro pensou: “Que mal faria? Quem saberia?” Mas aí lembrou-se. Lembrou-se da fidelidade a Deus. Lembrou-se do que aprendeu de sua mãe. Lembrou-se: “A Lei de Deus não é para quando está tudo bem, mas para os momentos de tentação.” E contrariando seu corpo e seus sentidos, decidida, fugiu.

Há muitos cristãos que vivem na igreja, servem na igreja, obedecem ao que foi ensinado na igreja, mas vivem desejando as coisas do mundo. A nossa mente está impregnada com valores do mundo. Os filmes, as séries e novelas que assistimos, as músicas que ouvimos, lotam nossa mente com uma moral distorcida. E nós admiramos isso. Nós pagamos por isso. Nós até torcemos pelo personagem que faz tudo aquilo que nós não podemos fazer. Secretamente, cobiçamos viver como eles. É claro que não estou dizendo que não podemos ouvir música ou assistir séries. Mas quero mostrar que o que acontece na nossa mente importa. O que desejamos secretamente importa.

Há várias coisas que poderiam ser ditas a respeito da cobiça. Devemos guardar nossos olhos. Devemos guardar nosso coração. Devemos evitar encher nossa mente de bobagem. Devemos ter um autocontrole que começa muito antes, muito antes de consumar o pecado. Contudo, nada disso vai até a raiz do problema. Tudo isso é tratar os sintomas, mas não a doença.

Satisfação em Deus

A verdadeira pergunta que devemos fazer é: “Por que Davi cobiçou? Por que desejou aquilo que não lhe pertencia? Por que ignorou o fato de que aquela mulher não poderia ser sua por direito?”

O Pr. Rick Gamache, coloca essa questão assim:

Davi percebe que antes de ter cometido adultério com Bate-Seba, ele cometeu adultério espiritual contra Deus. Por que ele precisava dela? Por que ele estava disposto a matar seu próprio amigo por ela? Porque antes de Davi pecar contra Bate-Seba e Urias, ele perdeu a alegria da sua salvação.

É por isso que lá no salmo 51, em que ele ora pelo arrependimento desse pecado, Davi diz (Sl 51.4, 12).

​Pequei contra ti, contra ti somente
e fiz o que é mau perante os teus olhos,
de maneira que serás tido por justo no teu falar
e puro no teu julgar.

Restitui-me a alegria da tua salvação
e sustenta-me com um espírito voluntário.

Quando estamos contentes em Deus, desfrutando dos prazeres da comunhão com Deus, com nossa mente cheia da vontade de Deus, não resta espaço pra mais nada.

Novamente, o Pr. Rick diz:

O pecado sexual é um sintoma de falta de plenitude de alegria e contentamento em Jesus. É um sintoma de uma falta de ser arrebatado pelo amor e bondade e misericórdia e bondade e beleza e excelência e majestade e glória e honra e poder de Deus.

Por isso, quando lhe vier a tentação, a cobiça, o desejo ruim, corra. Mas não corre pra qualquer lugar. Corra para Cristo. Faça como Davi fez em oração, e peça a restauração da alegria da salvação. Olhe para sua graça e misericórdia e bondade. Não olhe para o que não te pertence. Olhe para o que já é seu.

Referências:

SCHAEFFER, Francis. Verdadeira Espiritualidade. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

GAMACHE, Rich apud REINKE, Tony. The Root of Sexual Sin (And Every Sin) (link)

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