O pecado aos olhos de Deus – Lições do pecado de Davi [5]

Essa é a quinta e última parte de uma exposição em 2 Samuel 11. Acompanhe o blog e veja essa série completa.

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A última coisa que aprendemos sobre o pecado aqui é que ele desagrada a Deus. Olhe os versículos 26 e 27 (2 Samuel 11.26-27).

26 Ouvindo, pois, a mulher de Urias que seu marido era morto, ela o pranteou. 27 Passado o luto, Davi mandou buscá-la e a trouxe para o palácio; tornou-se ela sua mulher e lhe deu à luz um filho. Porém isto que Davi fizera foi mau aos olhos do SENHOR.

Um final feliz?

Temos um epílogo dessa narrativa. Bate-Seba ouve que Urias morreu, e logo começa o processo de luto. Novamente, o narrador é bem objetivo, ele se refere a ela como “a mulher de Urias”. Naquele tempo, o luto levava no mínimo sete dias.

Assim que terminou o luto, Davi mandou buscá-la e casou-se. Tudo para que ninguém desconfiasse do adultério. No máximo, diriam que Bate-seba era uma sortuda. Ela não apenas não permaneceu viúva, como ainda casou-se com o rei. Tudo acabou bem para o nosso anti-herói.

Só que é revelado que Deus, que até então não tinha sido citado nenhuma vez, não viu isso tudo com bons olhos. Davi pode se esconder do escrutínio público, mas não dos olhos de Deus. Deus não tolera o pecado. O pecado é uma ofensa à santidade de Deus.

Uma realidade inescapável

A pena para quem comete adultério era a morte, tanto para o homem quanto para a mulher. Temos isso lá em Dt 22.22.

Se um homem for achado deitado com uma mulher que tem marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, eliminarás o mal de Israel.

Davi pode ter escapado dessa penalidade frente à justiça dos homens, mas não pode escapar à justiça de Deus. Quem estabeleceu essa lei não foram homens, mas o próprio Deus. E no capítulo 12, Deus começa a agir de forma a aplicar sua pena. Ele faz Davi dar o seu próprio veredito!

Deus não faz vista grossa a nossas falhas. Ele pode perdoar até o pior dos pecados. A sua aliança com Davi não foi desfeita por causa de um pecado. Contudo, sofreremos as consequências dele. Deus não é impassível. Ele não passará a mão na nossa cabeça e dirá que não foi nada.

Embora sejamos perdoados pelos pecados, nós também teremos de lidar com as consequências deles. Talvez um dos piores danos do pecado de Davi seja a forma como afetou sua casa. Ele viu sua casa tomada pelos mesmos pecados, pela mesma crueldade que cometeu. Ele viu seus filhos cederem às suas paixões. Seu filho, Amnom, estuprou a própria irmã (2Sm 13.1-22). Outro filho, Absalão, mata a Amnom (2Sm 13.23-39). Absalão mais tarde ainda se rebela contra Davi (2Sm 15.1-18). Estupro, incesto, morte, rebelião.

E Davi assistiu tudo, quase que passivamente. Ele demora a se reerguer. Ele pouco fala, pouco repreende. Se antes era zeloso, agora se torna passivo. Se o reinado de Davi tinha atingido uma relativa estabilidade, isso tudo vai por água abaixo a partir desta queda de Davi. Ainda que Davi tenha sido perdoado, ele sofre as consequências pessoais desse pecado por um bom tempo.

Uma graça preciosa

Não podemos cair no extremo de achar que um pecado pode nos levar a uma perda de salvação. Tampouco no extremo de pensar que o perdão e a graça de Deus são motivos para desconsiderar a disciplina, inclusive a disciplina eclesiástica. Em momento algum no texto é questionado que a pena para Davi é a morte, e essa pena é aplicada em seu filho. Davi foi poupado, mas alguém teve de sofrer a pena.

Não quero de maneira alguma desconsiderar o amor e a misericórdia de Deus para conosco. Mas quero frisar que a graça de Deus não é uma graça barata. Dietrich Bonhoeffer nos diz que graça barata é aquela graça que justifica o pecado, mas não o pecador. O nosso pecado teve um preço, um preço alto, que foi pago por Cristo na cruz. Por isso a graça é preciosa, preciosa demais para ser banalizada.

Por isso, não devemos tratar o pecado com leviandade. Não devemos pensar conosco mesmo: “Pequemos, pois Deus perdoa!” A graça nunca foi desculpa pra pecar. Quando pecamos, perdemos a alegria da salvação. Perdemos o sentimento da presença de Deus. Entristecemos o Espírito Santo. Como um pai cujo filho traiu a confiança, Deus vira a cara para nós por algum tempo. Também sofremos a disciplina, o castigo de Deus.

Conclusão

Por fim, que não sigamos o exemplo de Davi, mas o de Urias.

Não sejamos negligentes como Davi, que permaneceu ocioso abandonando sua vocação. Tenhamos sim um espírito voluntário, como o teve Urias.

Não sejamos cobiçosos, como Davi, que desejou o que não é seu. Sejamos abnegados, como Urias, que abriu mão de seu direito por lealdade. Sejamos contentes com o que Deus nos deu.

Desfrutemos da alegria da salvação. Não deixemos que o pecado frutifique. Lancemos eles a Deus, e rápido! Lembre-se que o pecado sempre pedirá mais um pouco, e nunca sacia. Deus é gracioso para perdoar e nos ensinar.

Não endureçamos nosso coração. Melhor é agradar a Deus que a homens. Lembre que podemos fugir da opinião pública, mas não da reprovação de Deus.

Que a paz de Deus guarde nossa nossos corações em Cristo Jesus. Amém.


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