O pecado e seus frutos – Lições do pecado de Davi [3]

Essa é a terceira parte de uma exposição em 2Sm 11. Acompanhe o blog e veja essa série completa.

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A terceira coisa que aprendemos com o caso de Davi é que o pecado frutifica em mais pecado. Veja os versos 6 a 15 (2Sm 11.6-15 ARA).

6 Então, enviou Davi mensageiros a Joabe, dizendo: Manda-me Urias, o heteu. Joabe enviou Urias a Davi. 7 Vindo, pois, Urias a Davi, perguntou este como passava Joabe, como se achava o povo e como ia a guerra. 8 Depois, disse Davi a Urias: Desce a tua casa e lava os pés. Saindo Urias da casa real, logo se lhe seguiu um presente do rei. 9 Porém Urias se deitou à porta da casa real, com todos os servos do seu senhor, e não desceu para sua casa. 10 Fizeram-no saber a Davi, dizendo: Urias não desceu a sua casa. Então, disse Davi a Urias: Não vens tu de uma jornada? Por que não desceste a tua casa? 11 Respondeu Urias a Davi: A arca, Israel e Judá ficam em tendas; Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acampados ao ar livre; e hei de eu entrar na minha casa, para comer e beber e para me deitar com minha mulher? Tão certo como tu vives e como vive a tua alma, não farei tal coisa. 12 Então, disse Davi a Urias: Demora-te aqui ainda hoje, e amanhã te despedirei. Urias, pois, ficou em Jerusalém aquele dia e o seguinte. 13 Davi o convidou, e comeu e bebeu diante dele, e o embebedou; à tarde, saiu Urias a deitar-se na sua cama, com os servos de seu senhor; porém não desceu a sua casa.

14 Pela manhã, Davi escreveu uma carta a Joabe e lha mandou por mão de Urias. 15 Escreveu na carta, dizendo: Ponde Urias na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra.

Lealdade inabalável

Davi precisava dar um jeito nessa situação, para evitar a vergonha pública e a morte da mulher que ele desejou. Seu primeiro plano é enganar Urias (v. 6). Ele precisa cometer mais pecados para poder se safar do adultério, e o primeiro deles é ser dissimulado, para manipular Urias a deitar-se com sua esposa.

Ele manda chamá-lo, pergunta a ele sobre a batalha (v. 7), e o manda descer à sua casa lavar os pés (v. 8). Lavar os pés é algo que se fazia quando se chegava de uma longa viagem e ia para a cama. Aqui, é um eufemismo para ele descansar e aproveitar os carinhos de sua esposa. Davi manda em seguida um presente. Ele faz de tudo para que Urias se senta um privilegiado.

Porém, Urias não foi até sua casa (v. 9). Ele dormiu com os outros servos de Davi. Davi chama Urias e lhe pergunta (v. 10): “Por que não foi até sua casa? Não veio você de uma longa viagem?”, ao que Urias lhe dá como motivo (v. 11) o fato de que uma guerra estava acontecendo, o povo e os valentes de Davi estavam acampados, e a arca foi levada. Ele não poderia descansar e deitar com sua mulher enquanto o povo se coloca em perigo. Ele quer voltar o mais rápido possível para a batalha. Se deitasse com sua mulher, teria de passar por pelo menos uma semana de purificação cerimonial.

É muito interessante que Urias se refere à arca. A arca é o sinal da aliança, da presença de Deus no meio do seu povo. Urias, um estrangeiro ou filho de estrangeiros, é nesse momento mais leal ao seu povo e à aliança que o Rei Davi, aquele com quem foi feita a aliança de uma dinastia eterna.

Davi promete mandar Urias para casa (v. 12), mas ainda faz mais uma tentativa. Ele o embebeda, na esperança de que ele se traia e vá deitar-se com sua esposa. Contudo, Davi não consegue vencer o domínio próprio de Urias.

Temos aqui um contraste grande entre Davi e Urias. Davi descansa enquanto seu povo luta. Davi cobiça e cede a suas paixões, roubando aquilo que não é seu por direito. Enquanto Urias abre mão de usufruir do que seria seu por direito, por amor seu povo e por comprometimento. Ele domina suas paixões.

Desespero e crueldade

Davi consegue corromper vários de seus servos, mas não consegue corromper o coração de Urias. Então ele planeja a morte de Urias de forma violenta. Ele usa o próprio Urias como mensageiro de sua sentença de morte (v. 15). A maldade de Davi chega a níveis extremos. Ele ordena que Joabe coloque Urias na batalha mais violenta, e o deixe sozinho, para que morra (v. 16). Ele sabe que Urias, um dos trinta valentes de Davi, lutaria até a morte e se colocaria em perigo sem questionar. A fidelidade de Urias lhe custaria a própria morte.

O desespero de Davi em esconder seu próprio pecado o leva a um ato cruel, ainda mais hediondo, mais merecedor de morte. Parece que isso é algo que todos nós fazemos quando queremos esconder nossos pecados secretos.

Pecados secretos

Deixa eu lhe contar uma história pessoal, que exemplifica esse fato. Quando eu era criança, e estava na quinta série, pela primeira vez tirei uma nota baixa na escola. Tirei um 2 de matemática. E eu, que sempre ouvi elogios, que era um bom aluno e etc, morri de vergonha. Eu realmente não tinha me preparado para aquela prova.

Então, a professora fez algo que piorou ainda mais minha situação. Ela mandou os alunos que tiraram nota baixa entregarem bilhetinhos aos pais, informando-os da dificuldade de seus filhos. Esses bilhetes seriam devolvidos na próxima aula, com a assinatura dos pais.

Eu não tive coragem de entregar o bilhete a meus pais. Quando chegou o dia de devolver o bilhete, na última hora eu assinei com uma letra que tentava imitar a da minha mãe. É claro que isso era impossível, eu era uma criança com uma letrinha bem tosca.

Minha mentira durou pouco tempo. No final do bimestre, meus pais foram chamados para conversar, e logo descobriram minha mentira. Meu pai ficou muito chateado, e com razão! Eu fiz algo pior que tirar nota baixa. Eu traí a confiança de meus pais.

Todos nós somos assim. Quando queremos esconder o nosso pecado, somos capazes de fazer coisas ainda piores. Se deixamos o pecado como uma semente no nosso coração, ele vai crescer, e terá como fruto mais pecados. O pecado muda o nosso coração. Ele tira nossa sensibilidade, cauteriza nossa consciência.

Por que persistimos?

Por que preferimos pagar o preço do pecado a se lançar em arrependimento diante de Deus?

Em primeiro lugar, porque acreditamos na promessa do pecado. Acreditamos que se fizermos só mais um pouco, ele será saciado, e tudo acabará. Quando tentado, lembre-se que o pecado sempre pede mais um pouco. Como uma máquina de caça-níquéis, o jogador sempre dirá “só mais uma moeda, só mais uma e eu ganho!” Mas é uma mentira. Um pecado secreto toma tudo de você, até o ponto de te desfigurar.

Em segundo lugar, porque não queremos enfrentar a Deus. Nos esquecemos que Deus é gracioso, e disposto a perdoar os pecados de seus filhos. Isso não significa que ele vá nos deixar como estamos. Ele vai trabalhar em nós, vai nos disciplinar, e isso vai doer. Mas precisamos de um encontro com nosso Pai.

Que o pecado na sua vida seja apenas um acidente, e não uma prática de vida. Quando pecar, confesse-se a Deus. Confesse também a um irmão de confiança. Que o fruto mais visto da sua vida não seja o do pecado, mas o fruto do Espírito Santo.

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